30 de junho de 2011

O projeto Jean-Paul Sartre





O engajamento político

Jean-Paul Sartre é conhecido como um dos mais famosos existencialistas do século XX. Na linha das ideias de Kierkegaard, Husserl, e Heidegger, ele carregou a escola existencialista para um patamar novo, definitivo talvez.



Mas, Sartre não apenas se ocupou de filosofia. Ele viveu intensamente os acontecimentos políticos de seu tempo.



Passou, por exemplo, pelos campos de concentração nazistas em 1940. Chegou a desenvolver laços de amizade com padres prisioneiros do regime de Hitler, e, finalmente, fugiu em março de 1941.



O Sartre existencialista que proclama sua filosofia como um humanismo é o mesmo que se posiciona firmemente a favor dos rebeldes na guerra colonial da Argélia e dá apoio pessoal ao revolucionário cubano Che Guevara. Não só. O Sartre pós-segunda guerra mundial é o filósofo que se preocupa com uma guerra atômica e que vê a sociedade capitalista “plena de contradições” como um monstro.



A atuação política de Sartre a favor dos comunistas fez com que uma profunda divergência se abrisse entre ele e seu amigo dos cafés de Paris, o filósofo argelino, Albert Camus. A publicação do seu “Homem Revoltado” desagradou bastante Sartre que nunca mais teve relações próximas ao antigo amigo.



Muitos tentam dividir a vida do filósofo francês tendo em vista seu engajamento político. É claro que isso não é possível. O Sartre que acompanha os estudantes em Paris no ano de 1968 contra o capitalismo, que funda a “Le Temps Modernes” com Merleau-Ponty e que ingressa no Partido Comunista Francês é o mesmo que reelabora o existencialismo.



Vale ressaltar que as mudanças políticas e as pequenas divergências teóricas com líderes marxistas na URSS e em outros países não apagam seu comprometimento com o comunismo.



Nesse sentido, o mesmo filósofo que concentra forças para lutar nas ações políticas em favor do movimento comunista internacional, lapida uma gama de conceitos e termos filosóficos de difícil compreensão (digamos que é preciso acostumar-se à sua filosofia).

A consciência (o “Para-si” e o “Em-si”)

Diz o famoso jargão existencialista de Sartre: “o existencialismo é um humanismo”.



A proposta humanista de Sartre quer fundar o sentido da existência no próprio homem e, para tanto, trata de desarraigar a metafísica de seus aspectos transcendentais, no sentido de afastar sua filosofia do Absoluto. Em oposição aos existencialistas cristãos, Sartre propõe um humanismo ateu.



Para ser ateu, mas ao mesmo tempo, fugir do niilismo, Sartre dá forma aos primeiros conceitos próprios de seu existencialismo:



“Se realmente a existência precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é, de submetê-lo à responsabilidade total de sua existência”.



Para Sartre, o homem existe e depois sua essência se define. Em outras palavras, o homem existe antes e passa a ser o que é depois. Essa noção contradiz a visão metafísica clássica, aristotélica e escolástica, por exemplo.



Essa obscura concepção iniciada com os primeiros existencialistas mudou completamente o modo como a estrutura metafísica da realidade humana era compreendida até então.



Sobre a relação sujeito-objeto, por exemplo, diz o filósofo: “Sou eu que sei que as coisas existem e, neste sentido, elas e eu-mesmo são ‘para mim’. Eu existo, e através da minha consciência faço existir o universo”.



Destas noções nascem os termos “Em-si” e “Para-si”.



Antes de chegarmos a esses conceitos, contudo, vamos esclarecer a noção sartreana de consciência.



A consciência, diz Sartre, é aquilo que não é.



A consciência para Sartre é uma ausência de ser, posto que é um movimento, um “ir para fora de si”. Essa noção que deriva de Husserl afirma a consciência não como um objeto ou coisa, mas como um transcender-se. A transcendência, nesse contexto, é a realização do homem enquanto homem.



Nesse sentido, Sartre afirma que a consciência, esse movimento, não é e não pode ser um “quarto escuro e empoeirado” onde jogamos nossas velharias. É como se estivesse dizendo o filósofo:



“No fim das contas, tudo está fora, e até nós mesmos estamos fora de nós mesmos. Fora quer dizer, entre os outros. Não é em nenhum refúgio que nós vamos nos descobrir. Onde nós vamos nos descobrir? Vivendo na rua, na cidade, no meio da multidão, coisa entre coisas, homem entre homens”.



Quer dizer, a consciência é nada, é vazio. Ele a chama de consciência posicional do mundo, pois ela se posiciona frente às coisas no mundo do ser.



É preciso prestar atenção ao fato de que a consciência, além de ser posicional, é não reflexiva, ou seja, ela não é uma consciência voltada para dentro. Ela é, na verdade, o “Para-si”.



Aqui os termos se confundem.



Às vezes, parece que a consciência é algo diverso daquilo que Sartre chama “Para-si”, mas não. O “Para-si” indica um movimento para fora, exatamente como a consciência é um movimento. E por que para fora? Como já dito, a consciência é nada, ou seja, é puro movimento. Em sendo movimento, ela deve ser movimento em direção a algo. Esse “algo” é tudo que está fora, é tudo que é no mundo do ser. E, esse algo que está fora é a própria consciência, por isso “para-si”, em direção à sua essência.



Nesse sentido, Sartre chama de “Em-si”, tudo que têm essência definida, tudo que é coisa, que é “maciço”, vale dizer, cheio de “ser”.



Quer dizer, a consciência é definida negativamente como oposição ao “em-si”, ou seja, ela é a negação do “em-si”. Ou seja, a consciência “não é”, não tem uma essência, mas existe.



E existe como? Existe, primeiramente, como consciência de si.



Aduz o filósofo:



“Esta consciência (de) si, não a devemos considerar como uma nova consciência, mas como o único modo de existência que é possível para uma consciência de alguma coisa. Assim como um objeto extenso é forçado a existir segundo as três dimensões, de igual modo de intenção, um prazer, uma dor não pode existir senão como consciência imediata (de) si mesmos. [...] O ser da intenção só pode ser consciência, de outro modo a intenção seria coisa na consciência”.

O “projeto” e a liberdade

Em sendo a consciência do homem um “transcender-se”, ela é e sempre será aquilo que projeta ser alguma coisa, aquilo que é “vir-a-ser”. O homem é um projeto.



Aí reside um paradoxo claro. Se o homem “está sendo”, ele ainda não é. Se ele ainda não é, como pode ser algo? Em outras palavras, como somos aquilo que ainda não somos?



(vale destacar: Sartre não escapa desse paradoxo).



Enfim, para chegarmos à liberdade, retomemos algumas noções: 1) a consciência é nada; 2) ela é movimento para fora e em direção a si mesma; 3) ela é um transcender-se.



Nesse contexto, diz Sartre: a liberdade é transcendência. E diz mais: a liberdade é a própria condição humana.



Nas suas palavras: “A liberdade é liberdade de escolher, mas não a liberdade de não escolher. Não escolher, com efeito, é escolher não escolher. Donde a absurdidade da liberdade”.



Dentro desse mundo sartreano, a liberdade implica necessariamente responsabilidade. Ou seja, o homem está obrigado à escolha e submetido à responsabilidade total de sua existência, o que não acontece apenas no plano individual, mas engloba todos os homens.



Diz o pensador francês:



“Quando dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens. [...] Ao afirmar que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os homens. De fato, não há um único de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não esteja criando, simultaneamente, uma imagem do homem tal como julgamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos. Se, por outro lado, a existência precede a essência, e se nós queremos existir ao mesmo tempo que moldamos nossa imagem, essa imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Portanto, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira. [...] Sou, desse modo, responsável por mim mesmo e por todos e crio determinada imagem do homem por mim mesmo escolhido; por outras palavras: escolhendo-me, escolho o homem”.



A escolha do homem, de si próprio, é a escolha pela realização do seu “projeto”.



Essa escolha representa a concretização do seu “não-ser” e a afirmação do seu constante “vir-a-ser”. Assim, podemos dizer que uma coisa qualquer é, mas o homem não é.



É essa espécie de “não coincidência” do homem consigo mesmo que caracteriza e dá nome ao “nada” de Sartre: “A liberdade é precisamente o nada que esteve no coração do homem e que obriga a realidade humana a se fazer ao invés de ser”.



Como já dissemos, Sartre tenta escapar do niilismo. Aqui, fica mais evidente que o filósofo tenta contornar sua visão de mundo ateísta fundando o sentido da vida humana num “incessante fazer-se”. Diz ele: eu não mereço ser um “gato siamês cinzento”, mas mereço “tornar-me um homem”.



Não é preciso ressaltar que a ausência de Deus no universo ateísta não permite a fixação de valores morais objetivos, posto que esses valores residem e encontram fundamento justamente num ser divino, “causa das causas”. Parece, portanto, que também Sartre não escapa dessa encruzilhada.

O Outro

Cada ser humano é um projeto de si, dessa maneira, os muitos “projetos” inevitavelmente hão de se chocar, de colidir, de atrapalharem-se mutuamente na afirmação individual do “vir-a-ser” de cada um.



Desse modo, cada pessoa se reconhece no outro, têm acesso à sua essência no outro. Somente a convivência com outro me garante que estou fazendo as escolhas que realmente desejo fazer, pois é na existência do outro que me vejo no mundo.



No fim, o projeto pessoal de cada um só faz sentido por causa do outro. Porém, é justamente o outro que me impede e que atrapalha a afirmação daquilo que “estou sendo”. Eis porque, “o inferno são os outros”: “Tudo que vale para mim vale para o outro. Enquanto tento livrar-me do domínio do outro, o outro tenta livrar-se do meu; enquanto procuro subjugar o outro, o outro procura me subjugar”.

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